segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

O coração de Hórus ainda estava acelerado. A descarga de adrenalina disparada pela aventura que passara pra conquistar o mapa que estava em suas mãos mal havia passado quando outra onda de emoção evitou que seu coração pudesse relaxar. Conferiu o mapa novamente e checou as marcações em seus instrumentos de medição. Seu destino estava certo.

Foi até o convés da embarcação e deu uma leve virada no timão. A caravela voadora do pirata dos céus deslizava suavemente entre as nuvens, a temperatura estava fria, devido à altitude, e o vento gelado massageava suas bochechas. Em pouco tempo, surgia no horizonte uma ilha flutuante, um grande pedaço de terra, solto, cercado por delgadas nuvens. Havia muitas montanhas altas circundando a ilha, de uma delas, descia um filamento de água, o qual formava um lago em sua base. As águas cristalinas do lago corriam até uma das extremidades da ilha e, formando uma imensa cachoeira, caíam em direção ao desconhecido, até se encontrar com o solo, onde os olhos não podiam alcançar por causa da altitude.

Ele finalmente conseguiu alcançar seu destino. Naquela ilha, Hórus encontraria, de acordo com seu mapa, o “Olho da Quimera”. Era um artefato antigo muito cobiçado, porque permitira que quem o puísse...

Pousou a caneta sobre o papel por alguns instantes, cansando uma pequena mancha em sua superfície. O que fazia o Olho da Quimera? - Indagou a si mesmo em pensamentos tão altos quanto a ilha que acabara de descrever. Apertou a caneta sobre o papel novamente e escreveu: O Olho da Quimera permitia enxergar sua alma gêmea onde quer que ela estivesse.

- Não! – gritou. Em seguida rabiscou todo o trecho.

- É uma história de aventura e fantasia. Sobre um corajoso pirata dos céus, com caravelas voadoras e ilhas flutuantes! Não é uma história de um romance aéreo, não é um devaneio – concluiu.

Mas naquele dia, Alexander não conseguia se concentrar na continuação de sua história. Guardou o papel e a caneta e levantou-se. Deixou a sobra fresca da árvore sob a qual estava e desceu a rua. Por mais que quisesse encontrar uma sequência para sua história, não conseguia para de pensar naquela voz que ouvira na tarde de ontem.

Ele era alto, magro e tinha os cabelos, curtos, muito negros. Vivia perdido em pensamentos e sonhos. Gostava de entender como as coisas funcionavam, como o mundo funcionava, como as pessoas funcionavam. Mas quanto mais observava, mais difícil parecia ver algo lógico naquilo tudo. Não entendia muitos comportamentos e se frustrava com muitas pessoas. Era uma pessoa reservada que adorava escrever.

No papel, Alexander colocava tudo as coisas que sentia, as coisas que desejava ser. Até mesmo o que não desejava ser. Escrevia sobre as coisas que tinha medo e as coisas que amava. Sua imaginação não tinha limites enquanto criava suas histórias, onde todos os seus desejos poderiam se realizar, em oposição a vida simples e não tão emocionante que levava.

Tinha dificuldades para lidar com algumas pessoas, enquanto com outras se dava muito bem. Se apresentava como Alex para aqueles com os quais simpatizava e tinha afinidade. Já para quem não gostava, era Zander, vindo da pronúncia de seu nome, a qual gostava de enfatizar “Alexzander”. Era A para aqueles que conquistavam seu carinho e Z para quem o fazia sentir mal. Mas para ele próprio era X, uma incógnita numa equação descontrolada que era sua vida. Sentia que ele mal se conhecia, sentia que tinha um grande potencial adormecido, mas não sabia como despertá-lo.

A única maneira que encontrava para externalizar seus impulsos era pela escrita.

Alexander descia a rua em direção a adorável casa que ficava ao fim da descida. Tinha esperança de ouvi-la cantar novamente. Na tarde de ontem, resolvera deixar sua habitual árvore, sob a qual sempre escrevia, para ir procurar outro lugar, por causa do barulho provocado por um grupo próximo ao local. Chegou ao final da rua e sentou se encostado no muro de uma casa simples, mas elegante. Enquanto seus traços compunham cenários e aventuras, começou a ouvir uma bela voz vinda do andar de cima da casa. Deixou a caneta de lado e prestou atenção na canção que estava sendo cantada. De onde estava, não era possível ver quem estava cantando, mas ele ficou encantado pela voz que ouvira. A música falava sobre liberdade, conquista de sonhos e felicidade, e o fez refletir sobre a própria vida.

Durante a noite, sonhou novamente com a música e a voz que a entoava. Ficou tentando imaginar como era a dona daquela voz tão bonita. Passara o dia seguinte tentado dar continuidade a sua história fantástica, mas era constantemente interrompido por lembranças do dia anterior que invadiam seus pensamentos subitamente. Não resistindo, resolveu ir até o fim da rua novamente, na esperança de que conseguisse encontrar a dona da voz. Não sabia o que faria caso isso acontecesse, não sabia como reagiria, não sabia se teria coragem de ir falar com ela, elogiá-la. Não sabia de nada. Suas pernas tremiam só de pensar na possibilidade de dar de cara com ela. O coração batia acelerado, mesmo que, no fundo, achasse remota a possibilidade de tudo aquilo acontecer. Mesmo assim, algo fazia com que ele seguisse em frente, algo suprimia toda sua hesitação e ele foi em frente.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Loiros, ruivos e castanhos. Fios de todas as cores. Era assim que se via o cabelo dela ao sol, à distância, como um campo de trigo que se embaralha no vento. Essa profusão de cores que ela externalizava, estava presente também em sua mente. Idéias brotavam a todo o segundo. A todo o momento, coisas novas passavam pela sua cabeça. Ela queria viver para construir tudo o que sonhava. Ela queria construir para materializar sua existência e perceber então que viver tinha realmente valido a pena.

 A maior parte do tempo, estava sozinha. Ela e sua fiel companheira: a música. Não importava o gênero. A melodia estava presente. Também adorava cantar. Os instrumentos nunca foram seu forte. Diversas vezes, quando criança, sua mãe a incentivou a tocar piano, violão. Mas Diana*  nunca se habituava. Ela queria ser livre. Sem compasso, tempo e métrica. Ela queria se expressar, se soltar. Queria apenas sentir.  E esse desejo pela liberdade se materializava intensamente no seu canto, o qual só entoava quando estava sozinha.

Baixa estatura, rosto redondo e pele muito branca. Era dona de grande doçura e alegria, porém, ao mesmo tempo, era um ser introspectivo, uma questionadora incorrigível. Seus  olhos enormes e inquisitórios delatavam sua cede pela descoberta. Diana queria entender tudo o que estava a sua volta. Provavelmente, estava condenada a morrer como um felino, devido a sua extrema curiosidade e sua facilidade extrema de se meter em encrenca. “Apurar, investigar, compreender”: esse era seu lema.

Tinha nome de deusa da mitologia romana, mas não passava de uma simples garota (ou, pelo menos, assim ela pensava). E, de fato, na vida só se tem aquilo que se acredita ter. Se não se crê naquilo que se é ou se tem, o material possuído torna-se inócuo, improdutivo e, praticamente, inexistente. É preciso acreditar.

*Em Roma, Diana (a Artemis, da mitologia grega) era a deusa da lua, dos animais selvagens e domésticos, da caça e da castidade.